Mark Lanegan – Blues Funeral

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20 de fevereiro de 2013 por osagaz

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Se eu tivesse o costume de escrever listas de melhores discos (ou livros, ou filmes, etc.) do ano, pouca – ou nenhuma – coisa lançada no ano em questão estaria por lá. Não por desdém à produção contemporânea. Eu simplesmente tento correr atrás de um enorme prejuízo, lendo, vendo e ou vindo um bocado de coisas lançado muito tempo antes, e assim dar conta da minha formação cultural risível.

Fiquemos com o exemplo da música, meu maior interesse. Descobri e virei fã de muita coisa boa no ano passado. Mas a esmagadora maioria dessa música é velha. E, até onde eu sei, toda semana um mar de álbuns com um enorme potencial para me agradar é lançado. Eu não tenho dinheiro. Eu não tenho nem tempo para baixar esses discos.

A vida cospe na minha cara, amigos.

Entre as centenas de discos interessantes lançados no ano passado, ouvi apenas três: Global Flatline, do Aborted, The Dark Roots of Earth, do Testament e Blues Funeral, de Mark Lanegan. Os dois primeiros são ótimos e pesadíssimos discos de bandas veteranas que não perderam sua relevância e importância no contexto extremo em que estão inseridas. Mas nenhum se compara a Blues Funeral, o melhor álbum que ouvi no ano passado, não importando o ano de lançamento.

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É muito comum lermos matérias e entrevistas que descrevem Lanegan como “sobrevivente”, “alma torturada”, “a voz da angústia”, etc. Apesar da cafonice, tudo isso é verdade. Lanegan, assim como seus contemporâneos e amigos Kurt Cobain e Layne Staley, sofreu com relacionamentos abusivos e disfuncionais (inclusive com seus companheiros no Screaming Trees) e com o pesado vício em heroína. Diferente de seus colegas, não sucumbiu. E todas estas terríveis experiências só contribuíram para que sua música se tornasse mais sombria, disco após disco.

Blues Funeral é, obviamente, muito menos pesado que os discos das bandas citadas acima. Mas é um relato sonoro triste, resignado e muito melancólico. Com a exceção de “Riot in My House” (que conta com a participação de Josh Homme) e “Quiver Syndrome”, duas grandes canções de rock carregadas de distorção que lembram o passado do vocalista com os Trees e com o Queens of the Stone Age, a sonoridade do álbum explora climas e elementos eletrônicos que remetem tanto ao post-punk quanto a música disco europeia dos anos 70. Mas estamos falando de Mark Lanegan – a disco music daqui em nada tem a ver com falsetes bee-gees ou dançarinas com o mesmo penteado de Farah Fawcett. “Grey Goes Black”, “Ode to Sad Disco” e “Harborview Hospital”, que apresentam tal sonoridade “dançante”, são soturnas e densas. É aí que percebemos que o cara não está bancando o mártir – a tristeza aqui é real. Real o suficiente para transformar disco music em música de velório…

Além disso, como o próprio Lanegan explica, a influência do blues no álbum é muito mais pelo estado de espírito do gênero do que por sua sonoridade. As referências ao velho blues são sutis, como em “Bleeding Muddy Water” e “Phantasmagoria Blues” – o que há no álbum é a habilidade de transformar dor, raiva e mágoa em arte de primeira grandeza. São esses aspectos mórbidos que tornam a música de Lanegan aparentada ao velho blues de doze compassos. E essa depressão musicada chega ao clímax em “Leviathan”, uma das canções mais bonitas que Lanegan já gravou.

Lanegan fez um show em São Paulo no ano passado em que tocou a maior parte das músicas de Blues Funeral. Se antes desse álbum o repertório do cara já era fantástico, agora a qualidade de seu show deve ter chegado a um nível estratosférico. Um adendo muito pessoal: por mais brega que possa parecer, quando ouvi esse disco pela primeira vez, fiquei num estado psicológico péssimo, desesperador ao ponto de arrancar os cabelos. Terminada a audição, apertei play novamente… E isto se repetiu por umas duas semanas. O mérito da boa música: ouvir o disco te faz sentir um fodido, um merda sem valor nenhum. Quando acaba, você está desesperado para ouvi-lo de novo e, novamente, se sentir um fodido, um merda sem valor nenhum.

PS: Este ano, Lanegan lançará um álbum em parceria com o britânico Duke Garwood. Black Pudding está previsto para 16 de abril, e sairá pela Ipecac Records, de Mike Patton. E seu ex-companheiro de Trees, o baterista Barrett Martin, disse que tocará num vindouro lançamento do homem. Aguardamos ansiosos.

Track list:

“The Gravedigger’s Song” –  “Bleeding Muddy Water” – “Gray Goes Black” – “St Louis Elegy” – “Riot in My House” – “Ode to Sad Disco” – “Phantasmagoria Blues” –  “Quiver Syndrome” – “Harborview Hospital” – “Leviathan” – “Deep Black Vanishing Train” – “Tiny Grain of Truth”

Por Ricardo Pierre

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